terça-feira, 21 de abril de 2015

57. F de Fim de festa



Fim de festa

Já dormem as horas
de um dia que foi esperança
e já se apagam as luzes
nos balões da festa;
até as flores na jarra murcham.

Dormem corpos no relento da indiferença
e colocam de novo a cartola
os velhos charutos que se reacendem...
chupam-se as espinhas da cabeça
de um velho peixe salgado.

Gemem milhões
sem tostões em hospitais abarrotados,
morrem velhos nos corredores da desesperança
espirram milhões
de burlas constipados, cartolas,
em cobertas quentes (encobertos e quentes) de poder.

Falam de abril como se exista abril
em pluri-mentiras atiradas a tolos
como se papas fossem
e morrem sem papas outros tolos
que acreditam que existe abril.

Já não há armas como antigamente
nem há antigamente
mas ainda há liberdade para não se querer
o antigamente que é este presente.

Murcham na jarra as flores
e apagam-se as luzes da festa nos balões
e a liberdade teima em morrer no indiferente relento
nos corredores dos hospitais,
em frente à espinha salgada da cabeça do peixe.

Onde estão as armas de antigamente
se não na escrita do poeta?

E o homem da cartola
de charuto reaceso ri agora
no rosto da liberdade do poeta
e nega-lhe de novo abril.

Até um novo abril!

© Vítor Fernandes
21/04/2015

sábado, 11 de abril de 2015

56. E de Entardecer



Entardecer

Olho para a cor dos teus olhos
e espraio-me na beleza do entardecer,
és o postal ilustrado
que rouba ao mar o mel do fim do dia
e te inunda a tez de douradas horas.
O teu sorriso é leve e envolvente
como suaves ondas de brisa
 e só tu ofuscas com a tua majestade
a eterna beleza de um pôr-do-sol.

©Vítor Fernandes
10/02/2015

sexta-feira, 27 de março de 2015

55. D de Derreter (Ode ao Gin tónico)



Derreter
(Ode ao Gin tónico)

primeiro esfrego-te o interior
de naturais aromas
frescos
citrinos
e arrefeço-te o bojo
para que o embate
se mitigue.
Na conta e medida
te verto cristalino líquido
e te inundo de borbulhantes e amargas águas.
Uma folha de menta
será para ti a colónia de todos os dias.
E deixo-te a derreter em magotes
o gelo que te completa
quando me aperitivas as manhãs.

©Vítor Fernandes

segunda-feira, 9 de março de 2015

54. C de Credo




Credo

Creio na Liberdade e no voo das aves,
na vontade inexpugnável de gritar ao vento
e no amor.
Creio na determinação e na força de vencer,
na poesia livre de barreiras
e no amor.
Creio nos astros e na musa que me rescende a veia,
na etérea estrela de Hesíodo
e no amor.
Creio no honesto sentido da palavra dada
no abraço sincero de um amigo
e no amor
Creio no amor sem fronteiras
(porém não na construção da paz universal)
 e creio em Deus que me alumia e vida,
no caminho que é seu filho, Jesus
porque Jesus é amor.
E creio em mim
porque quem se não crê não é capaz de amar.

©Vítor Fernandes

6/2/2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

53. B de Beliscar



Beliscar

Preciso que me belisques
vejo-te na ombreira da porta do meu quarto
sinto-te emaranhada nas minhas pernas quando nos deitamos
dou-te à mesa, os parabéns pelo delicioso pato confitado
comentamos o filme americano que alugamos esta noite no videoclube
escolhes-me a gravata para a vernissage dos Medeiros
ajudas-me a corrigir os testes de matemática
e esfregas-me as costas no duche.
Mas abro os olhos e não te vejo.
Diz-me que não passo a vida a sonhar contigo.
Belisca-me!

©Vítor Fernandes 2015

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

52. A de Andorinha




Miro pela frincha da janela
o bamboleio altivo das tuas ancas
em esguio e nédio vestido negro
e o colar de ebúrneas pérolas
que te ornamenta o colo.
Avanças com a elegância de uma andorinha.

©Vítor Fernandes

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

51. Z de Zombies




Zombies
(Cieiro)

está vazio o espaço preenchido nos meus lençóis
tu já não és tu e eu também já não sou eu
vivemos como fantasmas.
invado-te o corpo e não me sentes
invado-te a alma e não me sentes
invado-te a ausência e não me sentes
sou um fantasma na tua própria inexistência.
apenas quando intento em beijar-te
reages às ondas do meu pensamento
e repeles-me.
como se fosse cieiro em teus lábios.

©Vítor Fernandes

6/1/2014

domingo, 14 de dezembro de 2014

50. X de Xavi


Fecha a boca quando vê a colher
Mas abre-la pra rir à gargalhada
"Não se ralem por eu não querer comer
pois como alegria à colherada"

Tem uma franja à estrela de rock
Toca xilofone e dá na bateria
"O meu avô gosta que eu toque
E acompanha-me nessa folia"

Tem dez meses e já faz tem-tem
dá chutos numa bola e grita golo
"só não digo pai nem digo mãe
primeiro vai ser avô, que me dá colo"

Adora a avó que lhe muda a fraldinha                       
e que com ele todo o dia fica
" mas prefiro a mamã que dá maminha
e o avô que grita golo do Benfica"

5/12/2014

terça-feira, 11 de novembro de 2014

49. V de Vade retro



Livrai-me Senhor

Socorro, socorro
Que Deus me ajude
a tomar a atitude
quando não, eu morro.

Estou farto de estar
por aqui a clamar
contra imbecis
e outros seres vis
mas foi Deus que quis
que os deva aturar.

E do mal que perdura
que há muito que dura
que me tapa a veia
é uma mão cheia
uma autêntica teia
o amor à gordura

Livra-me disso
e do pão com chouriço
E maçar não quero não,
peço pouco então
as moscas no verão
E pronto é só isso!

©Vítor Fernandes
11-11-2014

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

48. U de ultraje



Montanha

E o vento soprava gélido e eu lá estava,
batia-me o coração  num ritmo descompassado
 e as minha pernas tremiam.
A pele engelhava-se-me, mas eu não envelhecia.
Os homens paravam estarrecidos
e eu, confesso, tive ciúmes.
(Oh vil! oh reles! oh bastardo!
Não vales nada, ciúme infame...
Oh inquietude que não supero
Vade retro mesquinha e torpe agonia).
Do lado da montanha soprava o vento.
Gélido e eu lá estava,
porque tu te impunhas e a ofuscavas.
Atrás de ti só a montanha que sopra ventos.
E outros homens te cobiçavam
E o biltre e ignóbil ciúme me arrastava
para a montanha, roubando-me de ti.
Gélido!


© Vítor Fernandes

sábado, 8 de março de 2014

47. T de Ternura




Ternura

Se um dia te escrevesse um poema,
começaria com um rascunho.
Um esboço de medo, passeiro...
compartimentado.
Talvez em quarteis.
Sim, assim seria. Em quarteis.
No primeiro, sonhador,
desenharia as palavras com o carvão da utopia.
No segundo, aventureiro,
sequestrava-as.
No terceiro, acabrunhado,
plissava folhas de papel
e em cada prega deixaria uma...
timidamente escondida.
E no último, porque é  o quarto,
libertaria a poesia.
Deixaria que as tuas mãos, serenas,
as roubassem de cada plicatura
e as aventassem, ditas dúcteis
pl'os teus lábios.
Ternas são as noites de poema.

Vítor Fernandes © março / 2014


domingo, 26 de janeiro de 2014

46. S de Sofreguidão



Sofro de sôfrego que sou de ti fada branca dos meus sonhos.
Devoro, sôfrego também, os flocos de neve
que tombam e me gelam a alma
e há anjos de alvas plumas que tangem liras
e sorrisos.
Sôfrego de ti, sacudo o pó das noites
e atravesso a espuma dos anjos, mas tu,
de tão alva como eles fazes-me perder,
E perco-te.
Se te infiro, perscruto-me em labirintos
de nuvens, mais sôfrego ainda, e tropeço
em novelos de nada que orlam caminhos para nenhures.
Ouves-me respirar em suspiros cavados
como se esta sofreguidão de te ter
me esmagasse o peito
e feres-me de não te poder ter.
Consumamos de olhos bem fechados
num beijo
toda esta sofreguidão.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

45. R de Ruínas



Ruínas

De alvoroçado bramido se me fez o dia.
Eram os teus lábios que eu procurava
E apenas o som da telefonia me distraia o sonho.
Havia balas escondidas esperando canhões
E canhões invadidos com flores.
E os teus lábios não clamavam pelos meus
Porque ocupados estavam a gritar Liberdade.
Eu queria morder-te a palavra, sôfrego dela,
Mas as capas dos jornais desviavam-me o olhar.
E então os teus olhos refletiam espingardas
Ornadas de cravos e o ruído ensurdecedor
Da multidão ecoava no Carmo.
Hoje apenas sobram os teus lábios.

Tudo o resto não passa de ruínas.

terça-feira, 23 de julho de 2013

44. Q de de Quintilha



Quintilha

Nos fins de tarde em que o Sol pinta os céus de amarelo e púrpura é como se toda a vida eu fosse impuro, quiçá ateu. Serão os efeitos cromáticos que me alteram a alma e que só tu sejas a fonte da minha adoração? Os Deuses do Céu que me perdoem mas fizeram-te mulher e a mim homem e puseram no céu o astro-rei. Tudo se conjugou mulher, homem, luz e as cores do dia quando cai. Se romântico fora, correria até à linha do horizonte com um grão de areia capaz de parar a engrenagem que faz mover os astros e pararia o Sol no pôr-do-dito. E faria de ti a minha silhueta, realçaria os teus seios a contraluz e empurrávamo-nos contra o chão húmido da praia. E rebolaríamos na areia e faríamos amor contemplando o céu. E as suas cores.


Longe o dia cai no horizonte
Brilham fortes cores mistas no céu
Me confesso impuro, quiçá ateu
Por só a ti amar, ó minha fonte
E no areal te possuir, amor meu.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

43. P de Palavras




Palavras ditas

Palavras. Palavras, mais palavras.
Ouço-as demagógicas, matracas
Ouço-as meigas, doces convites
Ouço-as ásperas que ferem
Ouço-as vãs, ouço-as ocas.
Palavras. Palavras que são só palavras.
Ouço-as suplicantes ou não as ouço,
Ouço-as desesperadas, clamantes
Ouço-as cantantes, harmoniosas, compassadas.
Ouço palavras que não são só palavras.
Ouço-as luxuriantes, palavras excitantes.
Ouço palavras que não parecem só palavras.
Ouço-as declamadas, teatrais
Ouço-os obscenas, ofensivas
Ouço palavras cuspidas, violentas.
Ouço-as lastimosas, chorosas
Ouço-as catitas, elogiosas.
Ouço palavras que se empancam e palavras que resvalam.
Ouço-as brilhantes, eloquentes
Ouço-as comedidas, parcas
Ouço-as retóricas, embrulhadas, trapalhonas
Ouço-as convincentes, com ordem e de ordem.
Ouço palavras que não o são.
Ouço-as titubeantes, gaguejadas, incompletas
Ouço-as medrosas, hesitantes e nervosas
Ouço-as repetidas, metralhadas
Ouço-as alegres, risonhas, contagiantes
Ouço-as contadas, acrescentadas, mentidas
Ouço-as falsas, intriguistas
Ouço-as curiosas, inquiridoras
Ouço-as sussurradas, secretas
Ouço-as rápidas, cursivas, intensas
Ouço-as lentas, pausadas, refletidas
Ouço-as sábias, filosóficas
Ouço as palavras que escrevo.


sábado, 13 de julho de 2013

42. O de Obscenidade



Obscena

Siderado me quedo
Da indiferença do teu olhar,
Quando apenas para ti me peralvilho.

Palejante se me aparenta a face
Da prostituída expressão
Com que me reprovas.

Eu, que por ti, me reverbero
Nem um telegráfico olhar
Te já mereço.

É por isso que hoje quebro
O sigilo a que me encomendei

E te denuncio, obscena.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

41. N de Nau



Nau

Navego em turbulentas águas
Revoltas nos elos do meu cérebro.
É um emaranhado fluido de ideias vagas,
Não, não são vagas as vagas que o inundam.

Se me faço ao mar afogo-me em presságios
Que melancolicamente percorrem a rosa-dos-ventos.
Se me fico pelo cais temo a vaga que se agiganta,
Não, não são vagas as vagas onde balanço.

Desfaço-me confuso na escuma de milhões de gotas
Já me escasseia o oxigénio que clareia o marujar.
E de nordeste cresce a imponente vaga,
Não, não são vagas as vagas do meu tsunami.

E nem a Nau que a porto me aporte, me aportará
Se a estibordo não há estrelas e bombordo não enxergo.
Então desfaleço na imensidão perpétua da cruel vaga.
Ah! Como não são vagas, as vagas que me aproam. 


sexta-feira, 5 de abril de 2013

40. M de Memorial



Equipamento original do escritório do grande escritor, prémio Nobel da literatura, José Saramago. Provavelmente desta máquina de escrever saiu o primeiro Memorial do Convento.

terça-feira, 26 de março de 2013

39. L de Léxico


É tão grande a riqueza do vocabulário português que acho absolutamente despropositada a contínua discussão do Acordo Ortográfico




Paixão e sangue

Fora eu altiloquente
E dir-te-ia quanto
O meu coração, atormentado e cruento
Se torna num efeminado plangente.

Não, não são dislates,
É este desamoroso amor
Que dia a dia recrudesce.

Mas tu, tirana, nem notas
Quanto os meus olhos são círios
Cuja eupatia os transformam, por ora,
Numa apenas ténue luz.

E tu, encasulada qual crisálida,
Cobrindo pudicamente
Teu púbis de encacho,
Numa lutulenta felonia
Verborreias balestilhas
Como se o sustentáculo
Da minha paixão
Fosse um cagalhão de concupiscência.

segunda-feira, 18 de março de 2013

38. K uma letra no joKer




Joker

Quando achares que te vejo com os olhos que te não vejo,
Ou pensares que me afasto, mesmo se a proximidade do teu corpo me incendeia.
Quando quiseres que me vá sem que eu não queira partir
ou os teus olhos embaçarem quando os meus cruzarem os teus.
Quando renegares as minhas eternas juras de amor
ou recusares os meus lábios na sofreguidão de um beijo.
Quando desatares nas tuas pernas os apertados nós das minhas
ou te secarem as coxas na virilidade da minha presença.
Quando ficares indiferente às súplicas do meu beijo
ou teimares em ir quando te reclamo aqui.
Sentir-me-ei apenas uma carta fora do baralho.