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quinta-feira, 18 de abril de 2013

41. N de Nau



Nau

Navego em turbulentas águas
Revoltas nos elos do meu cérebro.
É um emaranhado fluido de ideias vagas,
Não, não são vagas as vagas que o inundam.

Se me faço ao mar afogo-me em presságios
Que melancolicamente percorrem a rosa-dos-ventos.
Se me fico pelo cais temo a vaga que se agiganta,
Não, não são vagas as vagas onde balanço.

Desfaço-me confuso na escuma de milhões de gotas
Já me escasseia o oxigénio que clareia o marujar.
E de nordeste cresce a imponente vaga,
Não, não são vagas as vagas do meu tsunami.

E nem a Nau que a porto me aporte, me aportará
Se a estibordo não há estrelas e bombordo não enxergo.
Então desfaleço na imensidão perpétua da cruel vaga.
Ah! Como não são vagas, as vagas que me aproam. 


segunda-feira, 18 de março de 2013

38. K uma letra no joKer




Joker

Quando achares que te vejo com os olhos que te não vejo,
Ou pensares que me afasto, mesmo se a proximidade do teu corpo me incendeia.
Quando quiseres que me vá sem que eu não queira partir
ou os teus olhos embaçarem quando os meus cruzarem os teus.
Quando renegares as minhas eternas juras de amor
ou recusares os meus lábios na sofreguidão de um beijo.
Quando desatares nas tuas pernas os apertados nós das minhas
ou te secarem as coxas na virilidade da minha presença.
Quando ficares indiferente às súplicas do meu beijo
ou teimares em ir quando te reclamo aqui.
Sentir-me-ei apenas uma carta fora do baralho.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

33. F de Fascínio





És esse pranto de azul povoado de lágrimas
És esse aroma inconfundível de mil iodos
És esse murmúrio marujante das calmas ondas dormindo
És o ribombar do trovão nas indomáveis vagas erguidas
És o sinal da partida para lá do horizonte
És o delicioso fruto do teu próprio ventre
És o campo de batalhas do meu já morto imaginário
És o covil de piratas de negras flâmulas içadas
És o cemitério de condenados escravos e  de cruéis capitães
És a circum-estrada da navegável história
És o museu vivo das galés e das quinhentistas caravelas
És o pasto onde se alimentam de Odisseias escritores
És o canto sumptuoso e tentador de garbosas sereias
És tu mesmo a sereia meio mulher e outra metade qualquer
És essa planície ondulante de invisíveis espigais
És o fado e o destino destas costas que humedeces
És a casa de cantados e temidos adamastores
És o choro de noivas nunca noivadas
És o véu negro de tristes viúvas e mães
És o prazeiroso refresco de amores em corpos ardentes
És essa incógnita profundeza de tetónicas falhas
És o espelho das alvas e soalheiras manhãs
És o manto doirado dos tranquilas crepúsculos
És a cama do rei astro quando o dia lhe finda
És o princípio e o fim da viagem
És fascínio, és vida e és morte.
És mar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

29. B de belo



Belo

O azul resplandecente do mar,
O canto do rouxinol,
“As Três Graças” de Rafael,
O nascimento de um filho,
A quinta sinfonia de Beethoven,
O esplendoroso monte Fuji,
Uma trovoada sobre o Índico,
Callas cantando “Die Walküre”,
A metamorfose de uma Monarca,
O vibrar de um Stradivarius,
Uma aurora boreal,
Um campo de girassóis no Alentejo,
A lua-de-mel,
O bolero tocado pelo sax de Jurandy,
Um crepúsculo no Taj Mahal,
Uma orquídea selvagem,
Somewhere over the rainbow,
Um golo de Eusébio,
O vestido de noiva de Diana Spencer,
As pernas da Beyoncé,
O dia da libertação de Nelson Mandela,
“A Criação de Adão” de Miguel Ângelo,
Os jardins suspensos da Babilonia,
O Machu Pichu,
Um botão de rosa amarela,
“O meu pé de laranja-lima”
E o teu sorriso.



sábado, 19 de janeiro de 2013

27. Z de Zurzir





Zurza

Não te podem chamar zabaneira
apenas porque zabumbas te anunciam
em teus zebrais indumentos.
Eras uma simples zagala quando te conheci
E de mim ébrio de zegre
como um zeimão, um sem-cabeça,
zelaste, sem intenções segundas.
Zaralhas e zarelhas tentam destruir
os zambujais que juntos construímos,
mas a nossa relação está no zénite.
Zoilos e zoilas!
Não passam de reles zoilos e zoilas,
Zombemos deles pois não são mais que zigotos
E riremos.
Riremos até que nos apelidem de zotes.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

25. X de Xávega



Xávega



Eles fazem os dias assim.
Remendam xávegas de agulha em riste
Aprontam artes pra colher o pão,
Lavram o mar, semeiam lutos,
Regressam ou não.

Eles fazem os dias assim.
Enfrentam tormentas, grandes desafios
Cercam a seara que lhes dá o pão,
Ao sol ou à chuva, no dilacerante vento.
Regressam ou não.

Eles fazem os dias assim.
Viúvas na praia já não choram homem
Agora os cadilhos saíram do ventre
Tormentos dobrados, aqueles que são.
Regressam ou não.

Nas redes em terra, do mar tragados
Crepitam badejos, sardinhas, pimpões
Da barriga ao saco se acolhem, amassam.
Eles fazem os dias assim.
Regressaram, sim.


sábado, 22 de dezembro de 2012

16. O de Orgulho



Orgulho

Ainda a matinal névoa se levanta e já te abraço.
Sinto no coração o gelado frio
que a tua indiferença inverna no meu peito.
Serves-me vingança!
Serves-me-la fria, quão fria ela de si é,
apenas porque o meu olhar se desviou
quando teus olhos, inadvertidos, de mim precisavam.
Sei que às vezes de azedume são meus dias
E sofro.
E choro por isso e me arrependo.
Mas não me quedo de joelhos
que amor não é submisso.
Espero que o tempo se alie aos ventos
e te sopre a dor e a raiva e teus olhos brilhem
de novo.
Eu vou esperar.
De egoísta oráculo, consultas mil me obrigam
a não curvar minha espinha,
as minhas lágrimas esconder,
a minha tez imota se ficar,
estátua fria, tão fria quanto a tua indiferença.
Mas meu coração sangra.
Suspiro de ti e esmago o orgulho,
o vil orgulho.
Ide-te infame!
E, pela madrugada,
ainda a matinal névoa se levanta,
Já te abraço.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

14. M de Mar



Amo te amar

E é tão prateada a tua voz
Quanto são de prata as ondas do mar.

E se cantas,
São as sereias que escuto no seu meloso trinado.

Quando te achegas,
É o marinho perfume que me agita os sentidos.

O teu deitar
Tem a beleza do pôr-do-sol.

Quando fazes amor
É como se o mar galgasse a muralha.

E quando adormeces, os ventos sossegam
E a brisa acalma os oceanos.